Prólogo
Há aproximadamente três meses que mudei pra essa casa nova. Estou me acostumando com uma vida normal. Nem sempre foi assim. Nem sempre foi normal.
Nunca fui de ter muitos amigos. Não por opção, mas as pessoas de alguma forma me ignoravam e não faziam a menor questão de me conhecer. Não pode ser por causa da minha aparência. Tenho defeitos como qualquer um, mas não sou feia. Minha vida não foi fácil, mas também não foi difícil. Pelo menos eu tinha um lugar para morar e pessoas que cuidavam de mim. Eu tinha aprendido a gostar daquelas pessoas que moravam comigo. Muito. Carly virou um tipo de melhor amiga que eu não me lembro de ter tido em toda a minha vida. Lembrar que eu fazia de tudo para não ser adotada faz com que me sinta estúpida. Negar um amor tão sincero que poderia ter recebido há anos foi idiotice. Eu me vestia estranha e sombriamente em dias de visita e falava de forma desinteressada, espantando qualquer pai ou mãe que pensasse em me adotar. Quão idiota eu fui por preferir permanecer em um lugar onde hoje percebo que é escasso de amor. Lá tudo era apenas um trabalho. Eu era apenas mais um produto que precisava ser "vendido".
Lia's pov
- Nervosa? - Carly enfiou sua cabeça pela porta com sorriso no rosto.
- Um pouco - admiti, sem saber o que fazer com as mãos.
- Venha tomar café da manhã - disse já fechando a porta.
Esperei um pouco antes de descer. Estava com medo. Muito medo. Eu estava indo para um colégio interno em outra cidade. No começo fiquei meio chateada por sair do orfanato e logo ser jogada em uma escola tão longe. Mas depois eu entendi que tudo isso era por mim e que seria a melhor época da minha vida - ou pelo menos era o que eu estava torcendo pra acontecer. A escola era forte em artes e isso me deixava mais ansiosa ainda. Não sei se tenho talentos nessa área, mesmo gostando muito de música.
Desci e olhei para o fruit loops que estava em uma tigela com leite. Meu estômago embrulhou.
- É o nervosismo - Carly disse ao me ver colocar a mão sobre a boca - Fique calma que vai dar tudo certo. Leve um pacote de biscoito pra comer no caminho ou vai sentir fome.
Guardei o biscoito na mala que eu havia feito no dia anterior e esperei, respirando fundo.
- Estou pronta.
Consegui sobreviver à viagem e lutei contra o meu nervosismo. Juro que o internato parece um castelo e eu fiquei encantada.
- Está atrasada - Professora Katherine proferiu sem nem tirar os olhos do quadro negro quando eu entrei.
Mas que culpa eu tenho se aquele lugar é imenso? Demorei meio século pra achar a secretaria pra pegar o meu horário e mais meio século pra achar a sala.
- Desculpe - falei de cabeça baixa, me sentei no primeiro lugar vago que vi, um pouco ao meio, ao lado de uma menina um tanto quanto peculiar.
- Oi - ela estendeu a mão para eu apertar - meu nome é Florence - seus dreadlocks balançavam ao redor da sua cabeça.
- Thalia - estiquei a minha mão para um aperto rápido.
- Sabe, se eu fosse você evitaria me atrasar pra aula da Kath. Hoje os professores toleram atrasos por ser o primeiro dia de aula, mas Kath é simplesmente muito rígida.
Estreitei meus lábios e confirmei com a cabeça.
- Sou Thomas, à propósito. Mas pode me chamar de Tom.
Sorri um sorriso que imaginei ser simpático, me endireitei na cadeira e coloquei meu caderno na mesa que eu dividia com a Florence e Thomas. Caso não tenha mencionado, a mesa era imensa e tinha três cadeiras de madeira.
- Meu Deus, finalmente alguém que usa caderno também.
Franzi o cenho e olhei para as pessoas em volta. Ela estava certa. Todos tinham um notebook ou tablet em que digitavam conforme a professora explicava a matéria.
- Não me dou bem com tecnologia - ela deu de ombros.
O sinal tocou finalmente depois do que pareceram duas horas de História e eu fui descobrir onde ficava o meu armário e em que sala seria minha próxima aula. Coincidentemente era junto da Florence, que tagarelava sem parar. Depois da aula de Filosofia eu só queria minha cama, mas ainda não podia me dar o luxo de tê-la.
- Nossa, eu adoro essa aula de Filosofia. É uma das minhas favoritas. Depois das aulas legais, né?
- Aulas legais?
- Sim. Temos matérias que nem consideramos aulas, achamos que é mais uma diversão, como por exemplo a aula de música. Essas aulas são normalmente à tarde e depois temos as noites livres.
- Pelo menos à noite não temos aulas, porque né...
- "Porque né" o quê?
- Anh?
Acho que a comunicação tava ficando um pouco falha.
- Você falou "porque né..." e eu quero saber o que.
Dei uma risada.
- Ah, isso. Eu uso o "porque né" pra deixar subentendido as coisas. Era uma mania nossa lá do Orfanato.
Opa. Falei demais. Cruzei até os pelos do meu braço, esperando que ela não tivesse percebido.
- Orfanato?
"Droga, sou muito azarada mesmo". Mas assim que esse pensamento passou pela minha cabeça, o sinal tocou avisando que se não corrêssemos estaríamos atrasadas pra aula de Cálculo e eu agradeci mentalmente por ter um pouco de sorte, afinal. Nem parecia que ainda estávamos indo para a terceira aula do dia. A hora passava lentamente.
Não consegui entender nada do que o professor de nome engraçado explicou. Fazer contas nunca foi o meu forte, então não me crucifiquei muito por isso.
- Agora é o almoço. Vamos encontrar o Tom no refeitório.
- Vocês se conhecem há quanto tempo? - perguntei enquanto Tom acenava de uma mesa mais ao canto do refeitório. Aquilo não se parecia em nada com um refeitório. Estava mais para um restaurante. As mesas eram de madeira escura, com bancos grandes de três a quatro lugares acolchoados cobertos por vinil da cor vermelha. Tinha espelhos por todo o refeitório, o que era meio estranho, já que eu acho que ninguém quer se ver enquanto mastiga.
- Tom? Bom, eu entrei aqui no ano passado e ele meio que foi o meu "salvador", se é que você me entende - ela desenhou aspas no ar.
Olhei pra ele e depois pra ela.
- Não, desculpe - dei de ombros.
A essa hora já estávamos nos sentando e Tom balançava em nossa frente dois hambúrgueres. Mas não eram daqueles que o guardanapo fica cheio de óleo.
- Sei o que a Flor gosta, mas não tinha ideia do que você comia, então optei por um hambúrguer também. Ninguém recusa um hambúrguer. Só torci pra que você não fosse vegetariana.
Rimos e eu neguei veementemente com a cabeça.
- Eu jamais conseguiria ficar sem comer uma suculenta carne mal passada e sangrenta.
- Eca, que nojo.
Florence franziu o nariz e eu e o Tom rimos enquanto desembrulhávamos o nosso "almoço".
- Mas continuando a história, - Flor falou entre uma mordida e outra - eu meio que sofria bullying aqui. Todos me achavam esquisita pelas roupas que eu uso, jeito de falar, por usar caderno, meus dreads... - ela deu de ombros e Tom prestava bastante atenção ao que ela falava.
- Não me incomodava isso. Sempre pensei que eu deveria ser como realmente sou, e não como os outros querem que eu seja. Mas um dia isso foi demais pra mim. Todos pegaram pesado.
- Como assim?
Ela terminou de mastigar antes de começar a contar.
Florence's Flashback On
Era aula de Biologia e hoje seria a aula de dissecar sapos. Eu não poderia estar mais animada, porque sempre ouvi dizer sobre isso e nunca tinha tido uma aula assim. No dia a minha dupla tinha faltado e eu teria que ficar sozinha.
- Professor, - Sammy Bradley levantou a mão com suas unhas pintadas de azul - Bela Jonhson faltou, então eu vou fazer isso sozinha?
Ela franziu o nariz, com cara de nojo.
- Não se preocupe, Srta Bradley. Conseguirei uma dupla pra você.
Eu poderia ter dissecado quinze sapos em estado de decomposição que eu não sentiria o nojo que eu senti quando ela olhou pro Jones com um sorriso no rosto e deu um tchauzinho de flerte.
- Pelo que consta na lista de chamada, a Srta Bells faltou também. Srta Johanson - o professor apontou pra mim - por favor, junte-se à Srta Bradley para a aula de hoje.
Não reclamei, levantei e peguei meu material, mas me virei a tempo de ver a Sammy fazer uma imitação de ânsia de vômito.
- Já falo logo, não encoste em mim e faça isso direito que eu não quero tirar uma nota ruim.
Ouvi risinhos vindos da bancada de trás e reconheci Doug, scrum half do Rugby e o Harry, loosehead prop. Logo atrás estavam Tom e o Danny, hooker e full back, respectivamente. Os dois conversavam e nem prestaram atenção no que ela tinha dito. Nem preciso dizer que me senti totalmente deslocada com isso. Era a aula que a maioria dos populares fazia juntos, o time de Rugby e as líderes de torcida, por conta dos horários dos treinos. O motivo de eu estar nessa turma é que o outro horário era junto da minha aula de Cálculo.
Resolvi que ficar calada era a melhor opção, evitando problemas. Assim que comecei a dissecar o primeiro sapo, - eram dois - vi Sammy escrever alguma coisa em um papel e depois passar pra trás, para o Doug, que mostrou pro Harry.
Depois que eu já estava dissecando o segundo sapo, Sammy levantou a mão, tentando chamar atenção do professor.
- Posso tirar uma dúvida?
- Claro, vou até aí.
- NÃO! - ela levantou em um pulo, mas logo se recompôs e com sua cara mais sedutora foi andando até o professor.
Ela se pôs na frente dele, inclinando-se o suficiente para que ele ficasse hipnotizado com o seu decote farto e foi aí que aconteceu.
Em um momento eu estava aprendendo sobre os órgãos de um sapinho indefeso e no outro eu estava com eles espalhados por todo o meu corpo. Sim, o Dougie e o Harry jogaram seus quatro sapos - dois de cada- em cima de mim. Senti todo o muco do anfíbio escorrendo pela minha nuca, já que o meu cabelo estava preso. Fiquei sem reação e o professor só viu quando todos da turma já estavam rindo de mim. Eu me segurei porque não choraria na frente deles. Mas nunca tinha experimentado essa sensação tão forte de humilhação. Saí correndo da sala e não parei até estar fora dos limites do colégio.
Florence's Flashback Off
- Espera aí. Isso é sério?
Olhei para o Tom pra confirmar a história, e ele balançou a cabeça, me deixando com um medo desgraçado de que acontecesse algo parecido comigo. Fiz uma nota mental de que tomaria muito cuidado com essa Sammy Bradley e os tais meninos.
- Mas deixa que eu continuo contando a história.
Tom´s Flashback On
Não conseguia acreditar no que eu estava vendo e nem que meus amigos tinham feito isso.
Eu saí correndo pelo colégio atrás da Flor para ajudá-la.
- Penso na minha detenção por sair de sala sem permissão depois.
Eu falei alto, mas ainda correndo o mais rápido que podia. Saí da propriedade do colégio, mas não sabia qual direção tomar até que vi um vulto se jogar no lago que ficava a uns cem metros do colégio.
- Não, não, não! - gritei e avancei naquela direção.
Era um lago quase cristalino e quando eu olhei em toda a extensão e não a vi, comecei a me desesperar. Tirei os meu sapatos e a camisa e pulei com tudo na água.
Nada naquele momento ia me fazer lembrar o nome daquela menina, então chamá-la estava fora de cogitação. Mergulhei algumas vezes e depois de uns cinco minutos eu resolvi que não a encontraria. Saí do lago frustrado.
- Merda, o que aconteceu com ela?
E foi aí que eu olhei pra trás e a vi, tirando o máximo de água que podia dos cabelos e da roupa. Senti um alívio percorrer pela minha espinha e fui andando o mais calmo que consegui até chegar perto dela.
- Você está bem?
Ela levou um susto, com certeza, porque seus olhos estavam esbugalhados.
- Estou bem, obrigada- ela respondeu secamente após me analisar e me reconhecer.
- Que bom. Fiquei preocupado porque vi você pular no lago e não vi quando emergiu. Achei que você estivesse tentando se m...
Então eu parei de falar, deixando a frase ficar no ar. Ela me olhou com uma cara desconfiada e finalmente entendeu.
- Você achou que eu fosse me matar? Meu Deus, claro que não! Céus! Que ideia maluca!
Na mesma hora me senti envergonhado pelo que tinha pensado e com certeza minhas bochechas me denunciaram, porque ela logo se calou.
- Eu só queria tirar essa nojeira de mim, mas obrigada de qualquer forma - disse depois de alguns minutos constrangedores.
Tom´s Flashback Off
- Então eu a convenci de que deveríamos passar o resto do dia passeando pela cidade, já que estávamos encrencados mesmo. E é claro que ela me achou o cara mais legal do universo e agora só vive grudada em mim.
Ela deu uma cotovelada nele, o que o fez rir.
- Na verdade você é o único que fala comigo, então...
- Faz sentido...
E isso fez ele rir ainda mais.
Nessa hora eu vi uma menina escorregar e cair de bunda no chão. Senti pena dela e me deu raiva do grupinho que riu. Os outros alunos riram rapidamente e depois apenas ignoraram, mas um grupo com duas meninas e três garotos irrompeu em risinhos zombeteiros. A menina levantou, bateu a mão em sua roupa e continuou andando normalmente.
- São eles, não são?
Apontei com a cabeça e Tom me confirmou com um aceno.
- Sammy Bradley e sua tropa. Sim, são eles.
Dava pra perceber que Flor ainda não tinha superado isso.
- Mas Tom, por que você não anda mais com eles?
Ele levou alguns segundos pra responder, como se nunca tivesse pensado realmente nisso.
- Na verdade por muitos motivos. Primeiro que eu tive que contar pra direção que o Judd e o Poynter tinham sido responsáveis pelo que tinha acontecido com a Flor. Segundo porque eu não sentia mais vontade de andar com eles. Não são o tipo de pessoa que eu respeito. E terceiro que todos nós levamos detenção, então eu não me surpreendi quando eles me imprensaram no armário do vestiário para dizer que eu estava expulso do time de Rugby. Mas de fato, o que me deixou triste foi que o Jones não fez nada a respeito. Ele é o capitão do time e meu ex melhor amigo.
Seu olhar pousou sobre a "mesa dos populares", como eu sabia que era chamada por todos os outros alunos no momento em que um menino com sardas bem aparentes olhou pra nós. Seu olhar passou de mim para a Flor e parou no Tom, mas apenas por uns segundos. Logo sua atenção foi chamada por algo que foi falado e ele então se juntou aos outros.
- Quem é a Sammy?
- A que está com o casaco do time. Ela atualmente está investindo no Danny. Na verdade, ela sempre está investindo no Danny.
- Danny é o seu ex melhor amigo?
- Sim, ele mesmo. E a que está ao lado da Sam é a Bela. Na verdade não acho que ela se encaixe no grupo. Ela não faz mal a uma mosca, é uma aluna muito inteligente e infelizmente melhor amiga da Sam desde o jardim de infância. A única coisa que elas tem em comum é que as duas foram nomeadas líderes de torcida. Normalmente só uma pessoa é escolhida. Na verdade é estranho, porque elas são líderes de torcida mas não fazem parte da torcida. Só comandam tudo - ele deu de ombros, ignorando seu próprio comentário.
- O que está ao lado da Bela é o Dougie Poynter e ao lado dele o Harry Judd.- Flor falou e eu me assustei, porque estava calada já há muito tempo.
Observei atentamente todos daquela mesa e me perguntei como pessoas tão bonitas poderiam ser tão más. Desviei o olhar só quando Florence me fez uma pergunta que eu não entendi.
- Já viu onde fica o seu quarto? - ela perguntou mais uma vez.
- Não. Só sei que fica na Torre Leste.
- O meu também. Os dormitórios femininos ficam na Torre Leste e na Sul. Dos meninos da Norte e Oeste, na propriedade atrás do colégio.
- Bom, o meu é o mesmo do ano passado. Na Torre Norte.
- Vamos - Florence começou a falar, enquanto levantava, me puxando consigo - Vou te mostrar qual é o seu quarto.
- Não se preocupem comigo, eu vou ficar bem - Tom ironizou quando o deixamos sozinho, mas tinha um sorriso no rosto.
Tom's Pov
Não me importava de ficar sozinho. Desde que eu parei de andar com os caras e saí do Rugby, não me importava se a minha única amiga fosse a Florence. Mas tinha seus contras, como por exemplo não ter alguém pra conversar papo de homem. Apesar de já ter falado algumas vezes sobre meus sentimentos com a Flor, tinha um assunto sobre uma pessoa em especial que eu nunca conseguia falar para ela. Olhei na sua direção e ela estava olhando pra mim. Sorri e ela sorriu de volta. Meu estômago fez aquela gracinha que sempre faz. De parecer que está em uma montanha russa.
Levantei e murmurei pra mim mesmo:
- É agora ou nunca.
Fui andando atentamente até ela e quando estava quase chegando fiz um pequeno desvio, colocando a minha bandeja e das meninas no suporte e ouvindo todos pararem de conversar e me encarar. Sorri sem jeito e saí de perto.
- Covarde, covarde, covarde - minha mente gritava pra mim e eu não discuti. Sabia que eu era um covarde mesmo. Não conseguia acreditar que eu não tinha ido falar com ela.
Tentei tirar isso da minha cabeça e fui ao meu quarto conhecer quem seria o sortudo que ficaria no mesmo quarto que eu.
Quando eu girei a maçaneta do quarto 412 e vi a mala que estava no chão do quarto eu fiquei estático. Joguei minha mochila em cima da cama e logo me arrependi lembrando do meu tablet, mas fui pra perto da mala pra confirmar.
Era uma mala com desenhos de bola de Rugby que eu conhecia muito bem, afinal, eu havia comprado pra ele. Quando peguei a etiqueta com o nome, lá estava escrito em um perfeito garrancho "Daniel Alan David Jones" e eu gemi baixinho. Que sorte a minha. Mal saí de perto das coisas dele e a porta abriu, revelando o meu mais novo colega de quarto, que era, por uma infeliz coincidência o meu ex melhor amigo.
- E aí, cara?
Ele falou como se nunca tivéssemos parado de nos falar.
- Como é que você está? - perguntei, mas era meio que uma pergunta retórica.
Depois veio o silencio constrangedor, enquanto eu abria a minha mala pra começar a organizar as minhas coisas.
- Tom, me desculpe por não ter feito nada a respeito da sua expulsão do time no ano passado.
Ele parecia realmente arrependido, mas não falei nada de imediato. Já havia passado quase um ano.
- Estava perto da eleição anual de capitão, e eu sei como o Harry e o Dougie conseguem ser persuasivos com o resto do time. Se eu contrariasse a vontade deles de te expulsar do time, eu perderia com certeza.
Fiquei calado por um tempo, processando um pouco o que ele havia dito.
- Sabe o que me incomoda de verdade?- perguntei, olhando para ele e senti que toda a mágoa que eu havia guardado estava prestes a ser colocada pra fora em palavras.
Ele não conseguiu responder e simplesmente engoliu em seco e negou com a cabeça.
- Me incomoda saber que você só ficou preocupado com a minha expulsão do time.
Ele permaneceu calado, então eu continuei.
- Juro que não ia ligar de ter saído do Rugby. Eu gosto muito de jogar. Mas gostava muito mais da nossa amizade, cara. E você fez questão de trocá-la por uma eleição. Se conversasse comigo, eu entenderia e estaria tudo certo. Eu sairia do Rugby, mas continuaria sendo seu amigo.
Minha respiração estava acelerada, mas finalmente eu tinha conseguido falar tudo o que estava preso em minha garganta. Jones era o único daquele grupinho que eu queria ter mantido contato. Quero dizer, ele e a Bela. O resto eu não fazia a menor questão. Eram pessoas sem escrúpulos que eu não queria perto de mim. Ainda mais agora que a Flor era a minha melhor amiga e eu a amava muito. Acho que faria tudo por ela. Sabe aquele amigo que você sente tudo que ele sente? Era assim a nossa amizade. Ela até já dormiu lá em casa, e o engraçado é que eu não consigo ver maldade quando estou com ela. O sentimento é parecido com o que eu tenho com a minha irmã mais nova, a Carrie.
No tempo em que eu pensava nisso, Jones continuou me olhando sem falar nada. Típico dele. Nunca sabia o que falar sob pressão. Sacudi a cabeça pra espantar esses pensamentos e saí do quarto, batendo a porta atrás de mim.
Florence's pov
Fomos andando calmamente pelo longo caminho do refeitório até os dormitórios. Era engraçado ver como Thalia estava encantada com o lugar, e eu lembrei de quando eu entrei aqui, um ano atrás. Era impossível alguém ver aquele lugar pela primeira vez e não dizer pelo menos um "uau".
- Aqui é lindo, não é? - falei, sem saber como começar uma conversa que havia me deixado intrigada.
- É. Aqui o tempo é um pouco melhor do que Londres. Lá costuma chover bastante.
- Ah, então você mora em Londres?
Ela coçou a cabeça, sem jeito.
- Morava. Nascida lá, mas me mudei para Cambridge.
- Que máximo! O Tom mora em Cambridge também. Eu sou de Liverpool. O legal daqui é que a gente conhece pessoas de vários lugares diferentes. Mas o chato é que a gente praticamente não se encontra nas férias. Passei um tempinho na casa dele, mas acho que só uma semana. E alguns finais de semana durante as aulas também...
Senti uma pontadinha de inveja ao pensar que Thalia poderia passar as férias inteiras ao lado do meu Tom. Não gosto do Tom "desse jeito", só não quero ter que dividí-lo com ninguém. Passei esse ano inteiro tendo só o Tom como amigo, e senti falta de uma amizade feminina. É claro que eu tinha a Zoe Bells, minha colega de quarto, mas não chegava a ser minha amiga. E o pior é que tem coisas que eu não consigo falar pra ele. Como sobre um menino que eu esteja afim ou algo do tipo.
- Pois é. Diversidade cultural - ela falou, sorrindo e rapidamente eu esqueci dessa invejinha momentânea e boba.
- Então, mas qual é o seu andar?
Estávamos entrando na Torre Leste e eu reparei que eles haviam mudado as cores das paredes.
- É o oitocentos e vinte. Oitavo andar.
- Na verdade não- balancei a cabeça - o hall conta como primeiro andar, então no elevador você aperta o nove. Mas antes de te levar no nono andar, vou te levar na cobertura.
- O que tem na cobertura? - ela perguntou curiosa e eu dei uma risadinha.
- Espere e verá.
Entramos no elevador e eu apertei o 10, onde era a cobertura, depois me olhei no espelho e respirei fundo. "Mais um ano. Só mais um ano e eu nunca mais vou precisar olhar pra cara dela"- pensei na Bradley, que com certeza estaria por lá.
A porta abriu e puxei Thalia. Ela olhava embasbacada para a sala, de um canto ao outro.
- E isso é pra gente usar?
- Claro! No horário de almoço nós temos duas horas pra fazer nada. Acho que eles tem plena consciência de que a gente não fica estudando.
Ela riu e eu também. Olhei em volta pra ver o que havia mudado no nosso salão da diversão. Na verdade era mais pra salão da pegação, mas tudo bem. A TV de 50 polegadas foi substituída por uma de 56. Um grande sofá listrado colorido que parecia ser extremamente confortável estava no lugar do antigo amarelo ovo de couro. Bem no canto tinham televisores menores, acoplados aos videogames. Uma para cada: Nintendo Wii, XBox e PlayStation 3. Particularmente não sou muito fã de videogame, prefiro os meus livros.
- Uau, isso é muito legal.
- Sim, mas existem regras.
Fiz um leve suspense enquanto Thalia olhava esperando que eu continuasse. Parecia uma criança.
- Temos horário para parar de circular pelo campus, e isso inclui a cobertura. É às dez da noite. Não que as pessoas realmente cumpram esse horário, mas se te pegarem por aí, dão uma advertência.
Ela fez que entendeu e eu continuei.
- Nada de meninos na torre das meninas e nada de meninas na torre dos meninos - pausa - E é claro que essa é mais uma regra negligenciada, mas dessa vez, se pegarem algo do tipo, é suspensão na hora - mais uma pausa - No momento só me lembro dessas regras, se eu lembrar de mais eu te falo.
Olhei em volta e não vi sinal da Bradley e da Jonhson. Apertamos o botão do elevador para descermos novamente e quando as portas se abriram, vi as duas pessoas que eu menos queria ver na vida.
- Oi cara de sapo.- ela sorriu vitoriosa pra mim e passou esbarrando no meu ombro, me desequilibrando.
- Você está bem?- Thalia perguntou quando me segurou, não me deixando cair.
Não respondi e descemos ao nono andar em silêncio. Enquanto andávamos bem devagar pelo corredor, Thalia me assustou ao virar repentinamente para mim e parar.
- E se eu não gostar da minha colega de quarto?
Eu ri.
- Você pode tentar trocar, mas é difícil. O sistema é complicadíssimo. Tem anos em que são pessoas diferentes e tem anos que as pessoas continuam as mesmas. É claro que tem gente que tem o papai com um grande poder aquisitivo e um cheque bem recheado para conseguir o colega de quarto que a filhinha mimada quiser.
Minha voz desdenhosa me denunciou.
- Você diz a tal da Bradley...
- Sim, ela e os outros dois jogadores.
- Mas não são três?
Assenti.
- Jones não é rico como os outros. Apesar do pai dele ser um grande artista, eles não estão indo tão bem assim na vida.
- Entendo.
- Bom, oitocentos e vinte.Chegamos.
Fiz uma continência e juntei os braços e pernas em posição apendicular.
Lia's pov
- É aqui que eu te deixo- ela disse dramaticamente, como percebi que tinha mania de fazer e de usar frases de filmes. Ela virou as costas para descer pro quinto andar, onde fica o seu quarto, quatrocentos e dezessete.
Respirei fundo e empurrei a porta. Dei de cara com uma menina deitada no chão com metade do corpo embaixo da cama, tentando alcançar alguma coisa.
- Volta aqui Noel, volta aqui.
Bati a porta atrás de mim e isso fez com que a menina batesse com a cabeça na cama.
- Ouch - ela disse depois de sair de baixo da cama, enquanto passava passava a mão onde tinha atingido para alivir a dor.
- Acho que vai ficar um hematoma feio - ela estendeu a mão- Meu nome é Sophia. Sophia Harrison.
- Thalia Hoppus - apertei sua mão- Prazer.
Soltei o aperto de mão e a reconheci como sendo a menina que havia caído no refeitório na hora do almoço.
- Quer dizer que você é a minha mais nova colega de quarto? - perguntei, tentando ser simpática.
- Sim,sim. E espero que você não seja bagunceira, porque sou chata com isso.
Nessa hora, eu arregalei os olhos.
- Juro que vou tentar me controlar, mas tenho sérios problemas com arrumação de quarto.
Mordi o lábio, nervosa por já não termos começado muito bem. Ela respirou fundo e estendeu a mão pela segunda vez pra mim.
- Juro que não reclamo se você não contar pra ninguém que eu tenho um bicho de estimação.
Olhei em volta e não vi nada, mas o regulamento era claro: nada de animais no colégio.
- Bicho de estimação?
- É - ela ainda estava com a mão estendida e eu apertei.
- Fechado.
- Bom, como eu gostei de você, vou te dar a honra de me ajudar a procurar o Papai Noel.
- Papai Noel?- olhei pra ela desconfiada. Não era Natal, como ela queria ver algum vestígio de Papai Noel? E depois, como é que uma garota com a idade dela ainda acreditava nessas coisas? Fiquei com receio de quão louca era essa minha nova colega de quarto e já estava me imaginando pedindo pra direção, suplicando para que me trocasse até de torre, se necessário, quando ela interrompeu os meus pensamentos.
- É. Papai Noel, o meu porquinho da índia.
Não sabia se ria porque tinha achado o nome engraçado ou de alívio. Enfim ela não era maluca. Ou talvez não tanto assim.
Soph's pov
Gostei da minha colega de quarto. Ela parece ser legal, e me ajudou a encontrar o Noel - ele tinha se escondido no banheiro. Minha bunda ainda doía do tombo que eu havia tomado no refeitório, mas tudo bem. Thalia e eu estávamos nos arrumando pra aula de teatro, que era a única atividade extracurricular que era obrigatória. Deveria ser atividade curricular.
- Morreu afogada aí?
Thalia demorou muito no banho e estava começando a nos atrasar.
- To indo.
Ela saiu do banheiro pronta.
- Deixa eu só passar um perfume e estarei pronta.
- Por que a gente está tomando banho e se arrumando pra uma aula normal?
Ela pareceu pensar.
- A gente não deveria tomar banho? Você não toma banho?
Rimos e saímos do quarto, encontrando com a amiga de Thalia no hall da torre.
- Oi Florence. Essa é Sophia. Ela está no meu quarto.
- Oooi. Eu adorei o seu cabelo. Posso tocar?
Elas me olharam engraçado, mas eu não liguei.
- Claro - Florence respondeu rindo.
O cabelo tinha um aspecto estranho, duro e áspero.
- Uau, que cheiroso.
Ela riu mais uma vez.
- Lavo todos os dias. Se não o fizer, fico com nojo.
- Pois é, está com cheiro de shampoo de morango.
- Que nariz bom.
Rimos e Thalia interrompeu.
- Qual é a dessa aula de teatro? Por que é obrigatória?
Florence revirou os olhos.
- Palhaçada. Eles acham que temos que aprender a lidar com o público, para termos sucesso em entrevistas de emprego e essas coisas assim.
Franzi o cenho.
- Mas todo mundo é obrigado a atuar?
- Não vou explicar tudo pra vocês, porque a Srta Wanda vai comentar todos os pontos hoje. Praticamente só isso que vai ter hoje.
- Nos arrumamos à toa.
Thalia me fez rir e concordar no mesmo momento em que senti a porta do auditório bater na minha cara e eu cair de bunda no chão. De novo.
Doug's pov
- Você está bem?
Abaixei para ver se a menina estava bem. Na hora em que eu empurrei a porta para sair ela estava entrando.
- Tá maluco? Existe uma porta de entrada e uma de saída, você não sabe ler?
- Desculpe, eu estava distraído.
- Tudo bem, Thalia. Eu estou bem. Sério.
Ela estava de cabeça baixa e eu estava preocupado. O ano nem começou ainda e eu já ia receber uma advertência. Estiquei a mão para ajudá-la.
Quando ela levantou a cabeça foi bem ridículo. Ela me olhou sério e deu um tapa na minha cara. Juro que fiquei sem entender.
- Ei, um erro não justifica o outro, Soph - ouvi Florence dizer.
Soph? Puta que pariu.
- Doug Poynter? - ela começou a ficar vermelha e eu me encolhi - Tem noção do quanto tempo fiquei te esperando aquele dia?
As duas outras olhavam assustadas para a cena que se desenrolava e eu estava rezando para alguém aparecer e acabar com aquilo.
- Desculpe, eu tive um imprevisto.
- Sei, - ela riu debochada - sei bem. Um imprevisto bem chato dentro da boca da minha melhor amiga, não é?
- Sophia, vamos.
A menina de cabelos claros a puxou pelo braço, mas ela parecia ter fincado os pés no chão. Depois de uns trinta segundos constrangedores, ela foi suavizando suas feições e virou, seguida pela outra, a Florence.
- Porra, cara, ta demorando pra cacete -Harry saiu do auditório ao mesmo tempo em que as meninas entravam, pela porta que eu deveria ter saído e evitado esse momento.
- Fodeu, moleque. Eu to fodido. Lembra aquela viagem à Cancun que eu fiz com meus pais seis meses atrás?
- Aquela que você diz que pegou várias e bagunçou pelo menos metade?
Balancei a cabeça em afirmação.
- Uma das não bagunçadas estuda aqui agora.
- É - ele fez cara de pensativo, mas sem dar muita importância - Se fodeu, cara. Agora vamos porque não quero chegar atrasado.
E entramos no auditório, onde todos os alunos do último ano estavam sentados já ouvindo a Srta. Wanda explicar como seria o ano acadêmico de teatro. Nada que eu não saiba. Assim que nos viu, Wanda nos fulminou com o olhar, fazendo com que todas as cabeças curiosas virassem em nossa direção. E eu a vi, sentada com as duas meninas e com o Tom. Fiz uma careta e arrumei um assento junto ao Danny.
Thalia's pov
- Primeiro dia de aula e já estão atrasados?
Pude ver Harry dar de ombros enquanto Doug se encolhia. Devia estar traumatizado ainda.
- Mas voltando ao que eu estava dizendo, meus queridos, teatro é a arte mais bela e mais fácil de expressar.
- Todo ano ela fala a mesma coisa - Tom sussurrou pra mim, logo depois falando as mesmas palavras que a professora proferia, como se os dois estivessem lendo o mesmo papel juntos.
- Teatro é essencial. Mas não pensem, meus queridos, que queremos só atores. Não mesmo. Uma grande peça precisa de muitos colaboradores para confecção de figurinos, sonoplastia, iluminação, cenário e tudo que compõe um espetáculo. Nossos espetáculos são produzidos para arrecadar fundos para atividades escolhidas por vocês por votação e a festa de final do ano. Não sabemos ainda qual será a próxima peça, mas todos são obrigados a ajudar de uma forma ou de outra. Acho que é só isso, meus amores. Ah, mais um aviso: não gosto de atrasos - ela olhou para os recém chegados - e nem de faltas. Evitem ou perderão seus cargos dependendo de suas importâncias. Agora sim. Estão liberados.
Fiquei boquiaberta.
- Jura que a aula durou menos de quinze minutos?
- Você vai implorar que isso aconteça em todas as outras aulas - Tom rolou os olhos e fez sinais de ânsia de vômito.
- Nem deve ser ruim assim, para de graça - bati em seu braço, me assustando com a intimidade.
- Olha ela, gente. Ta me amando muito já. Ta querendo meu corpo nu?
Fiquei vermelha e ele passou o braço ao redor dos meus ombros, dizendo quer era brincadeira.
- Querem conhecer um pouco a cidade?
- Não posso. Minha mãe deve estar chegando em um pouco mais de uma hora - Sophia lamentou.
- Vamos ficar na pracinha. Parece propício, já que foi onde conheci o Tom e viramos amigos. Agora somos nós quatro.
Todos concordaram e seguimos para a praça, onde sentimos um sol gostoso e incomum. Florence tirou sua camiseta, ficando apenas com o seu top vermelho.
- Ai que delícia.
Reparei que o Tom nem olhou para ela. Era incrível poder ver como realmente era capaz de existir amizade entre homens e mulheres. No orfanato, tinha um melhor amigo, mas idiotamente ele começou a gostar de mim e se declarou, me deixando sem graça perto dele. Sinto muita falta de uma amizade verdadeira. Nunca consegui me enturmar lá. Não sei o motivo, mas todos fugiam de mim.
- Ein, Thalia?
- Oi?
- Ta viajando, hein? - Sophia riu - Tom estava perguntando se a gente pode te chamar de Lia.
- Lia? Pode sim.
Ninguém nunca havia me chamado assim antes. Meu amigo me chamava de Tatá. Abri um sorriso e suspirei.
- Podem me chamar de Tom, ta? E vou chamar você de Soph - ela arqueou uma sobrancelha, mas logo riu - Gosto de apelidos. São mais fáceis e mais fofinhos.
- Nossa, Tom - Flor levantou com as mãos sobre os olhos, por causa da claridade - você está sentimental demais hoje. Ta feliz assim com a volta as aulas? Ou resolveu sair do armário nas férias?
- Tava com saudades de você. E agora ganhei mais amigas. Tudo bem que uma de vocês poderia ser homem, mas, fazer o que se meu charme afeta todas?
Rimos da cara que ele havia feito e logo depois ficamos em silêncio. Soph perguntou sobre a vida de cada um. Não consegui escapar. Eles me olhavam com expectativa enquanto eu suspirava e começava minha história:
- Bom, vou resumir tudo pra vocês. Nasci em Londres, mas perdi minha mãe quando tinha três anos. Estávamos voltando de uma viagem, só nós duas. Ou pelo menos eu acho que éramos só nós duas, já que eu nunca conheci meu pai, estávamos na estrada, não consigo me lembrar se ela estava correndo ou não, na verdade, ninguém sabe me dizer isso, só o que sei que houve um acidente, uma batida de carro, e eu sobrevivi. Passei minha vida praticamente inteira morando em um orfanato e fui adotada no dia do meu aniversário de 17 anos.
Eu odiava as caras que as pessoas faziam quando eu contava isso.
- Tudo bem, gente. Já faz tempo. Está tudo bem mesmo...
Eu tentava me convencer disso todos os dias. Mas a verdade é que nunca ficaria tudo bem. Peguei-me com a mão no colar da minha mãe. A única coisa que guardaram dela.
- Mas enfim, qual foi a da história lá no corredor, Soph? O que rolou entre você e o Doug?
Assim que perguntei isso, em uma tentativa de mudar de assunto, Soph ficou branca e logo seu celular começou a tocar.
- Minha mãe chegou, fui.
Jogou beijos no ar e saiu apressada, deixando nós três sozinhos em silêncio.
DUAS SEMANAS DEPOIS
As semanas de experiência acabaram e finalmente chegou o dia em que todos passariam a residir no colégio. As aulas do turno da tarde começariam e logo os horários ficariam todos ocupados. Thalia passou muito tempo com seus novos amigos e sabia que já gostava muito deles. E era recíproco. Duplas eram escolhidas nas aulas de teatro para contracenarem e Thalia já tinha feito par com Tom, Jeremy, Bela e Danny. Qualquer preconceito ou temor que possa ter formado sobre os dois últimos foi embora nessas aulas, onde as pessoas deveriam interagir antes de contracenar.
Harry's pov
Toda aula de teatro eu torcia pra conseguir ser dupla da Thalia. Eu a achava gata e gostosa e não me importaria se ela - assim como muitas outras - se rendesse ao meu charme. Até o Danny havia conseguido ser dupla dela.
- Cara, ela é muito legal. A gente se deu bem logo de cara - ele disse no primeiro treino de rugby. Depois desse dia, sempre que se encontravam, trocavam acenos e cumprimentos.
Finalmente na terceira semana tive chances de puxar assunto. Estava indo para o treino quando a vi, de roupa de dança, virando o corredor:
- E aí?
Ela parou e se encolheu, resmungando:
- Por favor, não jogue sapos em mim.
Congelei. Bela forma de começar um diálogo. Ri para descontrair, mas estava nervoso.
- Jogar sapos em você? Não vou fazer isso.
Ela foi se esticando devagar, mas ainda me olhava desconfiada.
- O que quer?
Não foi rude, mas seu cenho franzido indicava que ela achava a situação estranha.
- Nada. Ia comentar que é muito legal o fato de estar fazendo dança.
Ela relaxou um pouco e sorriu sem mostrar os dentes.
- Obrigada. Não sei se vou me encaixar, hoje é uma experiência.
Tentei sorrir meu melhor sorriso, mas deve ter saído estranho porque ela fez uma cara engraçada.
- Então. Não quero chegar atrasada, sabe...
E foi virando, quando eu puxei sei braço.
- Thalia.
Ela olhou para mim sem graça e depois para a minha mão. Soltei seu braço antes de continuar.
- Vamos dar uma volta pela cidade qualquer dia desses?
Ela assentiu e sorriu, virando novamente para ir embora.
Lia's pov
Jura? Tinha como eu ter sido mais idiota? "Por favor, não jogue sapos em mim"? Sério? E o que foi ele pedir pra ir passear com ele? Não sei nem porque aceitei...
- Oi, Thalia, não é?
A professora me libertou de meus devaneios e passei a prestar atenção à aula.
- Você precisa se concentrar.
Assenti e comecei a me perguntar porquê as palavras pareciam ter sumido da minha boca hoje.
- E alonga. Isso, vamos começar com o princípio da pirueta. Estiquem o braço assim - e ela formou um ângulo reto - ao contrário da perna. Thalia, dobre mais a perna de trás. Isso. Agora peguem impulso e puxem a perna assim.
Ela demonstrou e foi a nossa vez de fazer.
- O que você fez?
Me assustei com a pergunta e recuei.
- Uma pirueta, eu acho.
- Não. Você fez três.
Ela parecia perplexa e eu não sabia o motivo daquilo tudo, afinal, só dei impulso. A professora - que descobri se chamar Kate - me olhava engraçado e ao final da aula, me procurou.
- Quero que você faça um teste.
- Teste?
- Andei te observando durante a aula e acho que esta apta a fazer um teste para ver se você tem capacidade de fazer a turma intermediária.
- Oi?
- Pra você fazer o básico e o intermediário juntos. O intermediário é no próximo tempo. Quero que esteja no auditório sexta às 19:00 horas.
- Ok - foi tudo que consegui murmurar e saí da sala espelhada.
Quando cheguei no quarto minha feição deveria ser de espanto ainda, porque Soph franziu o cenho.
- O que aconteceu?
Eu suava mais que o normal - e não só pelo fato de ter acabado de sair da aula, mas de puro nervosismo.
- A professora...teste... jazz
Nada fazia sentido e eu tinha plena consciência disso, por isso me surpreendi com Soph.
- A professora de jazz pediu pra você fazer um teste?
- Anh? Como você sabe?
Ela deu de ombros e riu.
- Tenho talento pra entender pessoas que falam enrolado.
Ficamos conversando e eu acabei cotando da conversa com o Judd.
- Não acredito até agora que você ficou com medo dele jogar sapos em você. Achei que fosse Thalia, a Destemida.
Rimos. Era impossível não rir com a Sophia. Ela era idiota. No bom sentido, é claro.
- Não sou destemida. E não ia ser legal ficar cheia de muco de sapo na cabeça...
- Faz sentido.
Ficamos conversando depois sobre qual animal seria mais nojento. Soph disse cobra. Mas cobra não é nojento. Eu falei sanguessuga. Eca.
Danny's pov
O ano não tinha começado muito bem. De todas as pessoas do colégio, a única que me odeia se tornou meu colega de quarto. Ele evitava ao máximo todo esse contato, ficando fora quando eu estava no quarto e voltando nos meus horários de treino. Mas pelo menos eu era o favorito pra ser capitão do Rugby de novo. Quando saísse daqui, ia poder ir pra uma faculdade boa graças à bolsa que já era quase certa. Ia sentir falta desse colégio. Apesar de saber que se eu não fosse do time, não teria os amigos que tenho. E posso não ser o cara mais esperto do mundo, mas sei muito bem que a Sam está na minha. Tá na cara pra quem quiser ver.
- Cara, to pensando em investir na Sam.
- Investir? Aquela ali já é garantida. Não tem o que investir.
Fiquei pensando no que o Harry havia dito. Era garantida mesmo. Estava pensando nisso quando esbarrei com a Thalia na entrada da sala. Fazemos a aula de Cálculo juntos.
- Desculpe - falei rapidamente após apoiá-la para não cair.
- Não tem problema - murmurou e depois sorriu - Quer sentar com a gente?
Olhei em volta e vi que ela apontava para a menina do episódio dos sapos, a Florence. Percebi que o Tom não estava por perto e aceitei, receoso.
- Flor, esse é o Danny. Danny, essa é a Flor.
Claro que eu sabia quem ela era. Ela não era o que chamam de ordinária. Seus olhos realçavam em seu rosto e seus dreads balançavam timidamente enquanto ela assentia mostrando que também sabia quem eu era.
- Tem certeza que quer ser visto nessa mesa?
Ela fez uma careta e eu sorri.
- Não sou melhor que ninguém.
Florence's pov
"Não sou melhor que ninguém" era o que ele havia dito e eu queria dar um beijo bem estalado na bochecha da Lia por ter trazido esse deus pra nossa mesa. E ele ainda era humilde. Acho muito difícil encontrar hoje em dia um cara gato assim com essa humildade toda. Pra ser sincera, nem sei porque eu gosto tanto dele se mal o conheço.
- Então, Danny... vai voltar pra casa no final de semana?
Já era quinta feira e eu voltaria pra casa, porque teria uma festa em família. Ainda sim prestei atenção na resposta que ele daria para a pergunta da Lia.
- Esse final de semana não. Estou com matéria atrasada.
- Mas Danny, eles começaram a passar dever de casa só essa semana - ri, por ter chamado do mesmo apelido que Thalia acabara de usar.
Ele deu de ombros, sorrindo.
- Eu também vou ficar aqui - falei, mesmo que ninguém tivesse perguntado.
- Que bom. Quem sabe a gente não se esbarra por aí? - ele sorriu brevemente antes de voltar a atenção para o professor.
"Quem sabe a gente não se esbarra por aí..." Sorri bobamente até ouvir Thalia sussurrar.
- Achei que tivesse dito que ia voltar pra casa...
- Mudanças de planos.
Eu sorri mais uma vez, imaginando como seria o máximo esbarrar por aí com o Danny. Sozinho.
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Chegou o dia do teste que avaliaria se Thalia conseguiria passar para a turma intermediária. Ela estava uma pilha de nervos e Sophia só faltava bater na amiga.
- Para de andar, Thalia. Vai fazer buracos no chão.
- Não consigo, Soph. Eu estou muito nervosa.
- Por quê?
- Você tem noção da pressão que eu to sentindo? Tipo, eu preciso passar pra turma avançada.
- Mas por quê?
Thalia pareceu pensar, mas apenas deu de ombros.
- Não sei.
Sophia suspirou e chegou mais perto de Lia, segurando seu ombro.
- Você ao menos gosta de dançar?
Thalia fechou os olhos, corando.
- Não sei. Acho que nunca tive a oportunidade pra decidir isso.
- Mas isso não se decide, Lia. Você sente. Assim como sente o amor, sabe? É tudo do coração.
- Tipo como você sente que ama o Doug?
Thalia riu enquanto a outra fechava a cara.
- Não tem graça.
- Mas você não negou.
- Cala a boca. O foco hoje é você.
Thalia revirou os olhos.
- Não queria ser, acredite.
Ela foi até a cama pra arrumá-la.
- Relaxa, cara. Faz com o coração que vai dar certo.
Sophia logo se jogou em sua cama, colocando os pés pro alto. Thalia assentiu estranhando toda a fofura da sua amiga.
- Enfim, vou trocar de roupa e já estou indo. Não quero me atrasar.
- Boa sorte. Te encontro no jantar?
- Claro.
- E fecha segunda posição. Muito bem.
Diferente do que Thalia imaginava, seu teste era em uma aula normal com toda a turma do intermediário, o que a deixou mais tranquila por não ser o centro das atenções.
- Turma dispensada. Hoppus, por favor.
A professora chamou Thalia para perto da barra enquanto as outras alunas saiam da sala.
- Sim?
- Parabéns. Você conseguiu uma vaga na turma do avançado. Mas quero avisar que mesmo com esse talento natural, você vai ter que se esforçar muito pra alcançar a turma.
- Eu entendo.
- A partir de semana que vem, você assistirá as duas aulas seguidas. Tudo bem por você?
- Claro.
- Depois pode escolher qual dia é mais conveniente pra sua agenda. E me avise.
E então ela se virou, deixando Thalia parada observando seu reflexo nos dois espelhos da sala.
-Passei!
Thalia chegou no quarto e só falou isso. Para o seu espanto, três pessoas a aguardavam.
- Parabéns, Lia.
Ela foi abraçada por Soph, Flor e Tom.
- Obrigada, galera. Se não se importam, eu vou tomar um banho porque estou imunda.
- Ande logo que vamos sair pra comemorar - Tom anunciou.
Thalia revirou os olhos como de costume os três conversaram enquanto ela tomava banho.
- Se quiser sair do quarto agora, Tom, fique à vontade - Lia falou enquanto saia do banheiro apenas de toalha.
- Uau, tem certeza que preciso sair?
Flor bateu no ombro do Tom.
- Deixa de ser safado e sai daqui, garoto.
As meninas riram enquanto ele saia do quarto.
- Onde vamos? - Thalia perguntou.
- Segundo Tom, em um lugar muito legal que vamos amar.
As garotas deram de ombros, sem saber a que ele se referia. Sophia já estava com um vestido preto balonê simples e um scarpin também preto. Florence usava um lenço para prender seus dreads e uma saia longa com uma camisa jeans. Thalia optou por uma short jeans destroyed e uma blusa preta mais cavada nas laterais com uma estampa de gato e um allstar.
- Jura que você vai assim?
Thalia deu de ombros e Sophia revirou os olhos.
- Vocês vão demorar muito aí ainda? - Tom perguntou do outro lado da porta enquanto as meninas gargalhavam porque ele ainda estava esperando.
Quando os meninos chegaram na boate/bar que costumavam ir perceberam o quanto estava cheia. A fila estava dando a volta no quarteirão.
- Vai ser difícil arrumar uma mesa - Doug falou.
- Nem vai, cara. Vou falar com um parceiro meu pra colocar a gente na frente.
Enquanto eles iam andando até a entrada, Danny avistou Thalia e sorriu.
- Lia! - ele abraçou a amiga e as outra meninas. Com Tom foi apenas um aceno de cabeça.
- Cara, vocês vão ficar aí a noite toda. Vamos comigo lá pra frente que eu coloco a gente aí.
Thalia agradeceu e eles seguiram o Danny, dando de cara com Harry e Doug. O gemido de decepção da Sophia foi audível até para os meninos que estavam ainda um pouco longe.
- Será que eu posso voltar pro final da fila? - ela perguntou, mas Flor deu uma cotovelada em suas costelas e ela calou a boca.
- Fala, Danny. Mesa pra quantos?
- Deixa eu ver... Oito?
- Vem comigo.
E assim que o amigo do Danny guiou o grupo até a mesa onde eles ficariam, todos se cumprimentaram.
- Então, ficaram na escola? - Thalia tentou puxar assunto porque pressentia uma noite muito desconfortável pela frente.
- Pois é. Danny ficou pra fazer trabalho, eu e Doug resolvemos ficar pra fazer companhia.
Todos se assustaram já que quem respondeu foi o Harry.
- Entendi - Thalia se desconcertou e olhou para as mãos.
- Por Deus, vamos comer algo? Estou faminto! - Tom falou para Sophia, que assentiu. Eles pegaram o cardápio e começaram a fazer os seus pedidos, sendo seguidos pelos outros.
Depois do jantar, começaram os pedidos de bebida. Depois de muitas tentativas frustradas de iniciar uma conversa entre os dois grupos, Thalia se irritou.
- Olha aqui, se for pra passar a noite assim, eu vou embora, porque dormir é melhor.
Todos olharam pra ela, tentando entender.
- Cara, Jones é meu amigo - falou olhando para os seus amigos - e quero que se não quiserem ser amigos dele também, que pelo menos sejam legais, sabe? E outra coisa, vocês dois - ela apontou pro Harry e pro Doug - precisam ser mais comunicativos. Assim poderíamos todos nos dar bem.
Ela parou de falar e sentia o seu coração batendo com muita força, já que estava muito irritada.
- Desculpa, Lia - Flor começou - mas eu não consigo. Eles fizeram aquilo comigo.
Florence abaixou a cabeça e Thalia ficou com medo de que ela chorasse na frente deles. Mas ao invés disso, ela apenas levantou com mais raiva e praticamente gritou.
- Vocês tem noção de que arruinaram o meu ano passado inteiro? Que graças a vocês eu consegui ser completamente humilhada na frente de todos?
A cada palavra que Florence falava, Doug, Harry e Danny se encolhiam mais contra suas cadeiras acolchoadas.
- Desculpa - Doug foi o primeiro a falar - não sabíamos que você ficaria assim.
- Assim como? Humilhada? Com raiva? Me sentindo uma merda? Como você se sentiria, Poynter?
Ele se encolheu mais e queria poder sumir de lá naquele mesmo instante.
- Desculpa - Harry falou agora, parecendo sincero - Desculpa por tudo.
- Sei que nada que façamos vai mudar o que aconteceu, mas você não acha que podíamos recomeçar isso? - Danny segurou sua mão como um pedido de desculpas e ela suspirou pesadamente, cedendo a pedido dele.
- Vou tentar - disse baixo - mas não prometo nada.
Quando os drinks chegaram, eles beberam e ficou mais fácil de se entrosarem. Conversaram sobre diversos assuntos e quase não queriam ir embora. O sol já nascia quando depois de dançarem, conversarem e beberem, resolveram ir embora.
- Não existe risco de tomarmos esporro por estar fora até essa hora? - Thalia perguntou pro Tom que riu.
- Existe. Um risco muito grande. E se te pegarem, finja estar sóbria.
Thalia tinha bebido pela primeira vez na vida e ainda não tinha se decidido se gostava ou não disso. Ela apenas assentiu e seguiu os passos dos meninos, que faziam isso o tempo todo.
- Pelos fundos? Não é muito óbvio? - Sophia perguntou e Doug sorriu, chegando mais perto e beijando a menina, que deu um berro.
- Tá maluco, Poynter?
- Cala a boca, Sophia - Flor virou pra ela enquanto a amiga empurrava o garoto pra longe.
Conseguiram chegar ao dormitório sem encontrar ninguém no caminho, Thalia tirou apenas os tênis e se jogou na cama, dormindo quase que instantaneamente.